das coisas que ainda não perdemos
Eu sempre soube que voltaria a blogar. Idealizei este momento durante os últimos dois anos, tuitei algumas vezes "que vontade de postar no meu blog", na esperança de algum colega dizer vai lá, posta. Cheguei a fazer planejamentos e listas, imaginando o conceito da coisa toda e os temas que gostaria de abordar.
Por um tempo, pensei em fazer uma espécie de ode à antiga blogosfera a qual eu fazia parte, rememorando alguns escritores-blogueiros mais queridos do meu blogroll, e prestando uma pequena homenagem aos meus antigos espaços aqui no Blogger (os finados tô bem, tô zen e take me to budapest).
Contudo, retornei em um domingo a noite, de um final de semana qualquer, após ter redigido este texto primeiro na minha cabeça, enquanto lavava louça e sentia um tremelique na parte inferior do olho direito.
Das coisas que perdi
Eu costumava levar os meus blogs muito a sério, eles fizeram parte da minha adolescência e início da vida adulta, e carregavam em cada post, em cada personalização do HTML, as partes mais sinceras de mim. Por vezes, isso se dava por um interesse genuíno em doar-me às palavras e à atenuação que elas causavam aos meus sentimentos mais confusos. Mas se dava em especial porque eu acreditava no que estava fazendo, e sabia que para me destacar no mundo blogueiro precisaria adotar estratégias, e a que estava em voga por volta de 2014-2015-2016 nessa esfera da internet era essa estratégia da autencidade calculada que se passava por espontânea.
Graças a esse a background, por muitas vezes tive um bom storyteller para dar base à minha relação com a escrita "ah, eu escrevo desde que me entendo por gente, sempre tive blogs".
E é verdade. Mas também não é. Em dado momento, a sustentação da trope "estou vivendo intensamente, fazendo belas fotografias e garimpando coisas interessantes na internet para escrever sobre isso em meu blog" tornou-se cansativa e sem sentido.
Eu fingia que escrevia para efetuar uma catarse de meus sentimentos mais profundos nesse espaço bem formatado e esteticamente agradável que o Google me fornecia, enquanto a verdadeira catarse se dava dentro de mim, por meio dos textos que nunca escrevi.
Das coisas que ganhei
Enquanto lavava as vasilhas e preparava a cozinha para a semana que vem chegando, fui redigindo em minha cabeça trechos do texto que eu gostaria de escrever se tivesse um blog. E aí comecei a me questionar o porquê escrevia, qual o significado de passar tanto tempo longe desta atividade, e senti um pouco de vontade de chorar.
Me sinto meio brega em assumir essas lágrimas. Uma breguice que a minha versão blogueira de anos atrás jamais sentiria, inclusive. Naquela época, era preciso doar toda gama de sentimentos que brotava no peito para a causa, a blogosfera vinha perdendo espaço para os vloggers e os escassos leitores exigiam a intimidade e sensibilidade que o Youtube ainda não podia proporcionar.
Mas é engraçado como tenho abraçado a breguice. Ano passado excluí minha antiga conta no twitter e criei uma nova, onde me dediquei a postar, sem vergonha, medo ou planejamento, toda a paixão desgovernada que sinto por minhas histórias, cantoras e temas favoritos. Uma espécie de fan account aos 23/24 anos. É brega. Às vezes eu fico com vergonha, me questiono o que os meus pouco mais de cinquenta seguidores estão achando de meus retweets do Luv Doctor Who ou do Lorde Brasil. É brega e desprovido de causa. Mas sou eu.
Das coisas que ainda não perdemos
A tremedeira que sentia no olho enquanto lavava as vasilhas e planejava o texto na cabeça passou agora que comecei a digitar.
Um dos projetos de blog que elaborei ano passado tinha um conceito todo metido a besta. Pensava em fazer vários ensaios onde encadearia algumas referências que tive contato em meu percurso acadêmico - decolonialidade, vínculo e afetividade, escrevivências, e até segurança alimentar - com referências literárias e musicais, tudo isso envolto pelo tom mais *meme da Aline Moraes acho que a esquerda vai gostar kkk* que você puder imaginar. Só que isso demandava a energia que o bacharelado tirou de mim, então desisti (ainda bem).
Mas eu estou aqui, no fim das contas. Adotando um tom ligeiramente autodepreciativo, autocomplacente, como quem não quer nada. Mas eu quero sim, sabe. Recentemente me veio em mente a ideia de que, para um escritor, a vontade de ser lido não deve ser maior que a vontade de escrever, e no momento me pareceu um insight perspicaz, me fez feliz porque achei que serviria como uma dessas chacoalhadas que te impulsionam na realização de algo - no meu caso, na conclusão de textos que deixei pela metade.
Acontece que para além da vontade de escrever, de ser lida, além da paralização e da falta de ideias e do desejo de sentar e digitar páginas e páginas, minha constituição jamais deixará que eu pare de escrever, então chacoalhadas não significam nada.
É uma substância diferente que me impulsiona ao caminho das palavras. Eu quero algo, quero que o tremelique embaixo do meu olho continue se esvaindo para algum lugar, esse lugar desconhecido habitado pelos afetos desalinhados. Quero continuar inventando desculpas, ano após ano, para retornar aqui e retomar o drama que só a escrita para blogs pode proporcionar. Quero continuar imaginando o leitor ficcional ideal, que compreenda qualquer desorganização que eu sou capaz de produzir.
Porque os meus marcadores não deixam que eu esqueça onde estou, e como aqui é um lugar ora improvável, ora inadaptável. Porque eu ainda sou admiradora das palavras de Gloria Anzaldúa quando ela diz que, apesar de tudo, esse caminho é o que me resta, é o que eu ainda não perdi. Porque as coisas que ainda não perdemos são, no fim das contas, o que somos de fato.



Ameiii Rafinha. A escrita é como uma extensão. Não tem como separar. Já faz parte de você.
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