a escrita e a dinâmica controle-descontrole
Colocar um texto no mundo é perder o controle.
Penso isso enquanto encaro a data da última postagem que fiz aqui no blog: cerca de oito meses atrás.
Não é como se eu tivesse abandonado a escrita durante esse tempo. O diário que mantenho em um arquivo no Docs está recheado desde outubro de 2022 até aqui, e eu até publiquei um novo conto, que foi escrito nesse período.
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| Françoise Gilot |
Estive produzindo, mas calculadamente, de forma restrita e meio contida. Os diários, guardo para mim. O conto, só foi enviado para submissão após muita revisão. Eu mantive o controle.
Escrever e publicar exige, em suma, abster-se da noção (ou mesmo do desejo) de controle das impressões, opiniões e emoções que o receptor terá em seu encontro com a forma e o conteúdo das palavras. Só que nem mesmo das palavras temos controle, quem pode com elas?
Vir aqui e digitar freneticamente, editar o layout do blogger, relembrar antigos macetes sobre o HTML, tudo isso exige de mim abrir mão do controle — abrir mão do pequeno pedaço de mim que fica aqui e que vai ser, de alguma forma, transmitido.
Nesse sentido, o processo de escrita me remete à regra fundamental da clínica psicanalítica: a associação livre. Falar o que vier à mente. Escrever o que vier à mente. Sem se preocupar se o Outro é adequado ou não para ouvir as suas palavras, ou se aquele espaço e horário é adequado ou não para receber a sua enxurrada. Você deve apenas falar, perder o controle. É o que indico aos meus pacientes em suas primeiras sessões de análise.
Talvez seja um paralelo meio ruim? Freud provavelmente me enviaria uma carta raivosa sobre isso.
As palavras que eu escrevo também vêm em enxurradas. Não consigo, por mais que me esforce, trabalhar com outlines ou quaisquer outras estratégias que me permitam realizar uma estrutura base para o texto. Eu diria que esse é um dos meus maiores obstáculos no desenvolvimento de narrativas. Não consigo escrever para um edital que tenha um tema pré-estipulado, não consigo fazer caminhar uma história se ela não estiver a fim de sair.
Para tentar enfrentar esse problema eu já assisti inúmeras aulas de escrita criativa, busquei por diversos exercícios de desbloqueio, mas as minhas histórias preferidas (as de que mais tenho orgulho e afeição, e coincidentemente, as que foram aprovadas em submissões kk) são as que eu finalizei de uma vez só, sem pensar, sem tentar controlar, apenas associando livremente pelo teclado. E o que isso quer dizer, meu deus?
O controle, o conforto, a sensação de pé no chão — eis aí a minha base. Pelo menos, era nisso que eu acreditava, como uma boa taurina. Mas a cada dia, a cada enxurrada — na tela em branco, no divã — eu me deparo com o descontrole e ele é tentador. Ele é o motivo de eu estar publicando hoje.
BLOCO DE NOTAS:
- Citar a psicanálise aqui não foi intencional, mas ao finalizar me lembrei das zines "Associação Livre" da Monique Malcher. A minha chegou por esses dias, e ainda não consegui tirar um tempinho para ler com calma, mas estou muito ansiosa <3. Com as vendas delas a autora conseguiu arrecadar uma grana para custear sua viagem à Harvard, onde foi convidada para falar sobre seu trabalho.
- Em 2023 o álbum Pure Heroine da Lorde fez dez anos (!!!!). Dias atrás me deparei com um vídeo que mostrava um pedacinho do processo de produção
do hinoda faixa Ribs. Nele há um trechinho que me pegou demais: a Lorde defendendo as ideias dela para a música, em oposição a um senhor cabeçudo que dava sugestões, esperando que a querida (com seus 16 anos na época) aceitasse docilmente. Acho que esse é um caso em que escrita (Lorde compôs todas as faixas do álbum) e controle trabalharam muito bem. Provando que a vida é uma eterna sessão de convergências e divergências entre os conceitos que abraçamos. E tá tudo bem. Aqui o vídeo.
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| Four Friends | Salman Toor |



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